Existe uma cena que está se repetindo nos escritórios dos CEOs de maior crescimento em 2025: antes de entrar numa reunião de conselho, ou de decidir sobre uma aquisição, ou de demitir um sócio, eles abrem o computador e conversam com uma IA.

Mas não para pedir a resposta. Para preparar a pergunta.

Essa distinção parece pequena. Não é. Ela separa os líderes que estão usando IA de forma estratégica dos que estão usando como uma versão mais sofisticada do Google. E é o que determina se a IA está melhorando suas decisões ou apenas acelerando os erros que você já cometeria sozinho.

A Korn Ferry entrevistou 250 CEOs e membros de conselho em 2025 e encontrou algo que merece atenção: apenas 11% deles se sentem plenamente confiantes para lidar com os riscos que estão vindo. Ao mesmo tempo, 82% acreditam que a IA vai afetar profundamente seus negócios. Ou seja, a maioria dos líderes está navegando num momento de alta incerteza com ferramentas que ainda não entendeu como usar direito.

Este artigo é sobre como os que estão acertando fazem isso.

O problema com “usar IA para decidir”

Quando alguém diz que usa IA para tomar decisões, existe um espectro enorme do que isso pode significar. Num extremo, está o CEO que pede para a IA gerar o relatório de análise competitiva e apresenta o output direto ao conselho. No outro extremo, está o CEO que usa a IA para simular cenários, desafiar seus próprios pressupostos, identificar o que está faltando na análise, e então toma a decisão com mais informação e menos viés.

O primeiro está terceirizando julgamento. O segundo está ampliando capacidade analítica.

O risco do primeiro modelo é documentado. O professor Nicholas Carr descreve o que chamou de “erosão de habilidade”: quando delegamos decisões às máquinas com frequência, perdemos gradualmente a capacidade de decisão autônoma. Tornamo-nos dependentes do output sem conseguir avaliar sua qualidade.

O pesquisador Adam Galinsky, da Columbia Business School, é direto: a maior habilidade executiva de 2025 não é saber usar IA. É saber quando não usá-la.

“A IA produz insights, probabilidades e recomendações. Humanos decidem ações. A IA não pode compreender valores humanos, ética, cultura, emoções ou impacto social de longo prazo. Ela não pode assumir responsabilidade moral. As decisões mais fortes vêm de liderança humana apoiada por IA.”

TechnoEdge — How AI Is Transforming Corporate Decision-Making, 2026
O problema com usar IA para decidir

O framework do analista sênior: como calibrar a IA

A forma mais útil de pensar sobre isso é simples: trate a IA como o melhor analista sênior que você já teve. Um analista que lê tudo, processa tudo, não se cansa, não tem ego, e entrega uma síntese que nenhum humano conseguiria produzir em tempo útil.

Mas que também não foi à reunião com o cliente. Não ouviu o tom da conversa. Não sabe o histórico da relação com aquele parceiro. Não entende o que ficou não dito. E não vai responder pelo resultado da decisão.

Esse analista é extraordinário para a parte analítica. Para a parte de julgamento, ele não existe. O framework tem uma divisão clara.

O que a IA faz melhor do que qualquer humano

  • Reconhecimento de padrões em grandes volumes de dados. A IA identifica correlações que passariam anos invisíveis para qualquer analista humano — tendências de mercado, padrões de comportamento do cliente, anomalias financeiras.
  • Simulação de cenários. A IA roda dezenas de variações em segundos. O CEO que usa isso bem não está perguntando “qual é a resposta certa?” mas “o que muda se eu estiver errado sobre este pressuposto?”
  • Síntese e eliminação de ruído. Num ambiente de sobrecarga de informação, a IA filtra o que importa. CEOs relatam passar de horas em relatórios para minutos em sínteses focadas, liberando atenção cognitiva para o que realmente exige julgamento.
  • Eliminação de viés de confirmação. A IA não tem agenda. Ela apresenta o que os dados dizem, incluindo o que contradiz o que você já acredita.
  • Memória e consistência. A IA não esquece o que foi decidido, não é afetada pelo humor da semana, não tem interesse pessoal no resultado. Ela aplica critérios com consistência que o cérebro humano não consegue sustentar ao longo de centenas de decisões.

O que só o CEO pode fazer

  • Decisões que envolvem ética e reputação. A IA não tem bússola moral. Ela otimiza para o objetivo que você definiu. Se o objetivo está mal calibrado, ela vai otimizar na direção errada com eficiência.
  • Leitura de pessoas e relações. O que não está nos dados: o tom de voz de um sócio em negociação, a hesitação de um diretor que está prestes a pedir demissão, a confiança que um cliente demonstra mesmo quando os números são medianos.
  • Decisões com impacto na cultura organizacional. Cultura é o conjunto das decisões cotidianas do líder, vistas pela equipe. A IA pode analisar eNPS e dados de clima, mas não consegue perceber o que uma decisão comunica implicitamente.
  • Julgamento em contextos sem precedente. Modelos de IA são treinados em dados históricos. Em situações genuinamente novas — crise, disrupção, decisões estratégicas em território novo — o julgamento humano baseado em experiência e intuição tem vantagem real.
  • Responsabilidade. No final do dia, decisões têm consequências para pessoas reais. Funcionários, clientes, parceiros, acionistas. Quem responde por isso é o líder, não o algoritmo.

Como os CEOs de crescimento acelerado estão usando IA na prática

O padrão que emerge dos líderes que estão acertando não é de ferramentas específicas. É de postura. Alguns exemplos concretos:

Antes de decisões estratégicas grandes

O CEO prepara um briefing para a IA com todos os dados disponíveis: financeiros, de mercado, sobre as pessoas envolvidas, sobre o histórico. Pede à IA que sintetize, identifique gaps de informação, aponte riscos não visíveis e gere cenários alternativos. O que o CEO leva para a reunião não é o output da IA. É uma visão mais clara do problema, com as perguntas certas já formuladas.

Como ferramenta de desafio de pressuposto

Antes de comunicar uma decisão ao conselho, o CEO apresenta a lógica à IA e pede: “Argumente contra isso. Quais são os pontos cegos? O que estou assumindo que pode estar errado?” Isso replica o que um bom conselheiro faz, sem o filtro social que às vezes impede feedback honesto. A IA não tem medo de contradizer o CEO.

Para análise de risco em tempo real

Em momentos de crise ou de decisão rápida, a IA funciona como scanner: digere informação, identifica padrões relevantes, aponta precedentes históricos. O CEO não precisa depender de sua memória imperfeita ou de relatórios que chegam tarde.

Para preparação de conversas difíceis

CEOs que vão ter conversas de demissão, reestruturação ou negociação delicada usam a IA para simular cenários, antecipar objeções, preparar argumentos. A conversa em si é completamente humana. A preparação se beneficia da capacidade analítica da ferramenta.

Dado de contexto — Korn Ferry 2025: Líderes com maiores scores de avaliação geral, incluindo adaptabilidade tecnológica, alcançaram 8,7% de crescimento anual de receita contra 3,2% para os de menor score. A diferença não é o uso de IA em si — é a capacidade de integrar tecnologia à tomada de decisão de forma estratégica.

Como os CEOs estão usando IA na prática

O risco que poucos nomeiam: a IA que confirma o que você já quer ouvir

Existe um paradoxo no uso de IA para decisões que merece atenção direta: a IA é tão boa quanto a pergunta que você faz.

Se você pede à IA para justificar uma decisão que já tomou, ela vai encontrar dados que justificam. Se você enquadra o problema de uma forma que pressupõe a resposta, ela vai confirmar. O viés de confirmação não desaparece com a IA. Ele se sofistica.

A pesquisadora Cheryl Strauss Einhorn, do Harvard Business Review, nomeia isso com clareza: enquanto a IA cria espaço para pensamento de ordem superior, ela também pode nos tentar a terceirizar esse pensamento por completo. Boa liderança nunca foi sobre ter todas as respostas. Mas exige reflexão, coragem e clareza de propósito — qualidades que a IA não pode substituir.

O antídoto é simples na teoria e difícil na prática: fazer as perguntas certas — especificamente perguntas que desafiam o pressuposto, não que o confirmam. O CEO que aprende a usar a IA assim transforma a ferramenta em parceiro de pensamento real.

Outro risco crescente é a ilusão de objetividade. Dados produzidos por IA parecem neutros e científicos. Mas modelos de IA herdam os viéses dos dados com que foram treinados. Governança responsável exige que o líder entenda as limitações do modelo que está usando.

O que a pesquisa diz sobre onde a IA supera e onde falha

A Cambridge Judge Business School publicou uma análise direta em dezembro de 2025: para tarefas que requerem lidar com muitos dados — buscando tendências ou tomando decisões baseadas em lógica — com os prompts certos, a IA supera humanos em resultado e eficiência.

E na sequência: não confie na IA para tomar decisões em cenários que envolvam intuição, julgamento ético, adaptabilidade e visão estratégica.

Isso tem implicação direta para CEOs: 65% do trabalho de análise e síntese de informação pode ser delegado ou amplificado pela IA. O que sobra para o CEO — a parte insubstituível — é menor em volume mas infinitamente maior em importância: o julgamento sobre ética, cultura, relações e responsabilidade.

A pesquisa da LSE Business School confirma: IA excele em decisões com parâmetros fixos e dados estruturados. Falha quando o problema envolve interpretação ambígua, inteligência emocional, raciocínio ético e navegação de ambientes dinâmicos. Exatamente o ambiente em que CEOs vivem.

A dimensão que os relatórios de tecnologia ignoram

Existe um elemento que raramente aparece nas análises sobre IA e liderança, mas que é decisivo: a qualidade do julgamento do CEO depende da qualidade do estado interno do CEO.

Um líder em burnout silencioso que usa IA ainda é um líder em burnout silencioso. Ele vai fazer as perguntas erradas, interpretar os outputs pela lente da ansiedade ou do ego, e tomar decisões comprometidas pela fadiga cognitiva que nenhuma ferramenta consegue compensar.

A Korn Ferry foi direta sobre esse risco em 2025: quase 70% dos CEOs e diretores de conselho classificam habilidades de IA e tecnologia como prioridade máxima de liderança, enquanto inteligência emocional e engajamento ficam em 38% e 20%, respectivamente. Isso é uma armadilha.

A vantagem competitiva do líder humano sobre a IA é precisamente a capacidade de julgamento contextual, emocional e ético. Negligenciar o desenvolvimento dessas capacidades em nome do letramento técnico é enfraquecer a única dimensão onde o humano é insubstituível.

O CEO que vai usar IA de forma estratégica em 2026 é o CEO que tem clareza sobre seus valores, que conhece seus viéses, que tem saúde mental para sustentar decisões complexas sem ansiedade paralisante, e que desenvolveu o tipo de julgamento que nenhum modelo vai replicar. A ferramenta amplifica quem você é. Não corrige quem você não é.

Perguntas frequentes

Existe risco de dependência excessiva da IA nas decisões?
Sim, e ele é documentado. O fenômeno chamado de “erosão de habilidade” ocorre quando decisores que dependem sistematicamente de sistemas automatizados perdem gradualmente a capacidade de julgamento autônomo. A proteção é simples: use IA como input, não como output. A decisão final, com sua justificativa e responsabilidade, precisa ser sempre sua.
Como saber se estou usando IA para pensar melhor ou apenas para confirmar o que já acredito?
A pergunta certa é o teste. Se você está pedindo para a IA justificar uma decisão que já tomou, está usando para confirmar. Se está pedindo para a IA desafiar sua lógica, apontar gaps e gerar cenários alternativos, está usando para pensar melhor. A diferença está no enquadramento da pergunta.
CEOs que não usam IA estão em desvantagem?
Em análise e velocidade de síntese de informação, sim. Mas CEOs que usam IA sem clareza sobre suas limitações podem estar em desvantagem maior: com excesso de confiança em outputs que não entenderam e sem desenvolver as capacidades humanas que a IA não substitui. A vantagem não é usar. É saber para quê usar.
Que tipo de decisões nunca deveria ser fortemente influenciado pela IA?
Decisões com impacto direto em pessoas (demissões, promoções, formação de equipe), decisões que envolvem ética e reputação da marca, crises que exigem presença e responsabilidade humana, negociações que dependem de leitura de relações, e qualquer decisão em contexto genuinamente sem precedente. Nesses casos, a IA pode informar, mas nunca deve liderar.

Conclusão

O CEO que usa IA para decidir melhor não é o que sabe mais sobre tecnologia. É o que tem clareza sobre onde o julgamento humano é insubstituível e cuida de desenvolvê-lo.

A IA vai continuar ficando mais capaz. Os modelos vão melhorar, as integrações vão se multiplicar, a velocidade de análise vai aumentar. Mas nenhum avanço tecnológico vai substituir a necessidade de um líder com julgamento claro, valores sólidos e capacidade emocional para sustentar decisões que têm consequências humanas reais.

A pergunta que vale fazer não é “como estou usando IA?”. É: “como estou desenvolvendo as capacidades que a IA não pode replicar?”

Velocidade sem clareza é apenas errar mais rápido. A vantagem está em decidir melhor.

Ethos Apex · Desenvolvimento Executivo

A ferramenta amplifica quem você é.

A Ethos Apex trabalha com CEOs, diretores e fundadores que entendem que performance sustentável começa por dentro. Clareza de julgamento, inteligência emocional desenvolvida, saúde mental que sustenta decisões complexas — essas são as capacidades que nenhuma IA substitui e que determinam se você vai usar a tecnologia de forma estratégica ou apenas replicar seus erros com mais dados.

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